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O preço do café no Brasil: a alta, o pico e a virada de 2026

A matéria-prima subiu mais de 200% em cinco anos, o pacote de 500 g chegou a R$ 29,71 e o consumo recuou pela primeira vez em anos. Em 2026 o preço cedeu 21%. A série completa, categoria por categoria.

8 min de leitura

Entre 2021 e 2025, o preço pago ao produtor de café subiu mais de 200%. O repasse ao consumidor foi de 116% — menor, mas suficiente para fazer o brasileiro reduzir o consumo pela primeira vez em anos. Em 2026 o movimento se inverteu, e o pacote de mercado começou a ficar mais barato.

Este é o retrato da série, com as datas e os valores exatos de cada etapa.

A origem: a matéria-prima, não a margem

A alta começou na lavoura e no mercado internacional, não no balcão. Em cinco anos, o preço da matéria-prima subiu 201% para o conilon e 212% para o arábica. Em 2025, o preço médio internacional do café avançou mais 58,2%, num cenário de clima adverso, estoques globais reduzidos e demanda firme — especialmente asiática.

+201% e +212%Alta de cinco anos na matéria-prima, conilon e arábica. No varejo, o repasse foi de 116%. A diferença entre os dois números é a parte do custo que a indústria e o comércio absorveram.

Vale registrar isso com clareza, porque a conversa pública costuma inverter a ordem: o varejo repassou pouco mais da metade da alta do grão. Quem comprimiu margem foi toda a cadeia depois da porteira.

A escalada no varejo, ano a ano

O ano de 2024 concentrou o choque. O preço do café torrado e moído no varejo subiu 37,4%. Em 2025, mais 5,8% — uma desaceleração forte, mas sobre uma base já muito alta.

Preço médio do café moído, pacote de 500 g, no varejo. Fonte: levantamento VR, divulgado por Mercado&Consumo em agosto de 2026. A conversão para o quilo é cálculo direto, para efeito de comparação.
MomentoPacote 500 gEquivalente/kg
Janeiro de 2023 — antes da escaladaR$ 13,63R$ 27,26
Dezembro de 2024R$ 17,40R$ 34,80
Maio de 2025 — pico da sérieR$ 29,71R$ 59,42
Julho de 2025R$ 29,09R$ 58,18
Julho de 2026 — menor valor em 12 mesesR$ 22,93R$ 45,86

De janeiro de 2023 ao pico de maio de 2025, o pacote de meio quilo mais do que dobrou: de R$ 13,63 para R$ 29,71, alta de 118%. O pacote de 250 g seguiu o mesmo caminho, chegando a R$ 21,03 em junho de 2025.

O consumo respondeu — para baixo

Entre novembro de 2024 e outubro de 2025, o consumo interno caiu 2,31%, de 21,9 para 21,409 milhões de sacas de 60 kg. O recorde do país continua sendo o de 2017, com 22 milhões. Em consumo por pessoa, são 6,02 kg de café verde por ano — 4,82 kg de torrado e moído, ou cerca de 1.400 xícaras.

O efeito no caixa das torrefadoras foi o oposto do esperado. O faturamento da indústria de café torrado subiu 25,6% em 2025, para R$ 46,24 bilhões, com o volume caindo. Vendeu-se menos café por muito mais dinheiro.

R$ 46,24 bilhõesFaturamento da indústria de café torrado em 2025, alta de 25,6% sobre 2024 — com queda de 2,31% no volume vendido. Toda a diferença é preço.

Nem toda categoria subiu igual

O preço médio esconde movimentos bem distintos. Ao longo de 2025, segundo a ABIC:

  • Gourmet: +20,1%. A maior alta do ano, e ainda assim a categoria manteve 23,7% do mix certificado.
  • Tradicional e extraforte: +5,8%. Juntas somam 59,2% do mix.
  • Especiais: +4,3%. Alta abaixo da inflação do setor, num segmento que representa 2,3% do mix.
  • Superiores: −3,5%. Queda, na contramão de todo o resto.
  • Cápsulas: −16,8%. O recuo mais forte — sinal de um segmento que entrou em disputa aberta por volume.

A leitura que esses números permitem é incômoda para quem trabalha no café tradicional e animadora para quem trabalha na faixa de cima: a categoria que mais encareceu foi também a que não perdeu espaço.

2026: a virada

Desde agosto de 2025, o preço médio do café tradicional e extraforte caiu 21,22%, de R$ 62,83 para R$ 49,50 o quilo. O solúvel recuou 19,31%, de R$ 252,36 para R$ 203,64. Gourmets e especiais também baixaram, em menor escala.

A demanda reagiu quase de imediato. As vendas no varejo cresceram 2,3% entre janeiro e agosto de 2026, somando cerca de 13,5 milhões de sacas — das quais 7 milhões entre maio e agosto. No primeiro quadrimestre, o consumo interno já subia 2,44%, com março 10,25% acima do mesmo mês de 2025.

Do lado da oferta, o alívio tem explicação, e ela é grande. A safra brasileira de 2026 fechou em 67,6 milhões de sacas no terceiro levantamento da Conab, 19,6% acima de 2025 e a maior da série histórica — com o arábica, que é o café que mais pesa no preço, subindo 34,8%. A ABIC descreve a oferta de arábica e canéfora como de volta a condições normais.

No mundo, o quadro é o mesmo. O USDA projeta produção recorde de 189,7 milhões de sacas em 2026/27 contra consumo de 179,7 milhões: um superávit de 9,9 milhões de sacas, quase o dobro do ano anterior, com os estoques finais subindo de 24,4 para 26,3 milhões. Foi a escassez que levou o preço ao pico de 2025; é a folga que o trouxe de volta.

R$ 62,83 → R$ 49,50Preço médio do quilo do café tradicional e extraforte entre agosto de 2025 e agosto de 2026: queda de 21,22%. Ainda bem acima do patamar de 2023.

A ABIC, porém, não projeta queda expressiva no curto prazo: os estoques globais seguem baixos, e a associação avalia que o preço só deve ceder de forma consistente daqui a duas safras. O que existe hoje é acomodação, não reversão.

O que isso significa na prática

Para quem toca uma cafeteria, três coisas decorrem diretamente desses números.

O custo do insumo caiu, mas não voltou. O quilo a R$ 49,50 está 21% abaixo do pico e ainda 82% acima de janeiro de 2023. Um cardápio precificado antes de 2024 segue defasado; um precificado no pico de maio de 2025 tem folga para revisão.

A elasticidade ficou demonstrada. O consumo caiu quando o preço subiu e voltou a crescer quando cedeu, nos dois casos em poucos meses. O café não é tão insensível a preço quanto a tradição sugeria.

A faixa de cima aguentou melhor. Gourmet encareceu 20,1% sem perder participação e os cafés premium ganharam lares em todas as classes. A diferenciação protegeu margem onde o produto genérico não protegeu.

O panorama completo do mercado — produção, exportação, consumo e o setor de cafeterias — está em O mercado de café no Brasil em números.

Fontes

Todos os números deste texto vêm das publicações abaixo, na edição indicada. Onde a fonte é uma estimativa de mercado, e não uma estatística oficial, isso está dito no corpo do texto.

  1. Indicadores da Indústria de Café 2025 e preço no varejo — Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), fevereiro de 2026
  2. Preços altos derrubam consumo de café no Brasil em 2025 — Agência Brasil, janeiro de 2026, com dados da ABIC
  3. Preço do café moído cai para R$ 22,93 e atinge o menor valor em um ano — Mercado&Consumo, agosto de 2026, com levantamento da VR
  4. Vendas de café no varejo brasileiro crescem 2,3% em 2026 — Boca, setembro de 2026, com dados da ABIC
  5. Café: produção e comércio mundial — Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA/SCRI), 2026
  6. Acompanhamento da safra brasileira de café — 3º levantamento de 2026 — Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), setembro de 2026
  7. Safra mundial 2026/27 de café deve atingir recorde de 189,7 milhões de sacas — USDA/FAS, via Safras & Mercado, 2026

Leia também

  • O mercado de café no Brasil em números

    O país colhe 67,6 milhões de sacas, exporta US$ 16 bilhões e fica com 0,7% do mercado mundial de café torrado. Os dados oficiais da lavoura, do comércio exterior, do consumo e das cafeterias — e o que eles dizem a quem vive desse mercado.

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